Com trilha de Carla Boregas, participação de Juçara Marçal e performances de Pat Bergantin e Danielli Mendes, curta-metragem de Manuela Eichner e Vitor Campanario estreia em 25 de setembro no SescTV.

Não há narrativa linear em Diálogos do Toque. O curta-metragem prefere o caminho das imagens que respiram, dos corpos que hesitam, dos silêncios que pesam. Nas praias e rochas onde a cena se constrói, as bailarinas Pat Bergantin e Danielli Mendes se entregam ao vento e ao mar, até que o ritmo se quebra: máscaras, luvas e barreiras artificiais invadem o espaço, instaurando uma tensão entre proximidade e afastamento, entre o desejo de contato e o medo dele.

Dirigido por Manuela Eichner em parceria com Vitor Campanario, o filme-dança é também permeado pela música: a trilha original de Carla Boregas conduz o movimento, expandida pela participação da cantora Juçara Marçal, que imprime voz e corpo sonoro às imagens. Ao fundo, as palavras do escritor e líder Davi Kopenawa Yanomami ressoam como memória e alerta — um chamado ao que a humanidade insiste em esquecer sobre sua relação com a natureza e as consequências desse abandono diante da emergência climática.

Produzido pelos coletivos Cigarra Filmes e Olho-Pião Filmes, o curta costura documentário, poesia visual e performance como linguagem híbrida. Oceanos, povos tradicionais, biodiversidade e distopia se entrecruzam em gestos que não pretendem explicar, mas provocar. É um cinema que se move entre poesia e urgência, um convite à percepção do que escapa quando o toque já não basta.

“Diálogos do toque” é mais do que um filme.  É um expressivo fragmento que compõe a pesquisa desenvolvida, nos últimos anos, pela artista visual Manuela Eichner. Pesquisa esta que vem da sua inquietação sobre o desequilíbrio  das  ações humanas perante a natureza;  da ruptura da noção de pertencimento;  da ficção de uma superioridade em relação às outras espécies; dos dramas eminentes do aquecimento global; e de dúvidas que permeiam a nossa imersão nos dispositivos tecnológicos contemporâneos.

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.
“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

O filme foi idealizado durante a pandemia global do Covid-19, período em que a artista residiu em Toque-Toque Grande, uma vila de pescadores localizada no litoral norte de São Paulo. A imersão em meio à elementos de praia (mar, areia, rochas) e mata atlântica (plantas, musgos, córregos e cachoeiras) trouxe para a artista um religare com esses ambientes, assim como, novas leituras estéticas e visuais que produziram desdobramentos na sua pesquisa.

O deslocamento físico também provocou uma inversão de olhar: o reconhecimento de diferentes formas de consciência e inteligência das outras espécies, assim como a existência de outras linguagens e maneiras de se comunicar. Para a artista, tornou-se evidente o entendimento de que, no toque, há sempre o encontro de dois corpos, que se sentem e afetam.  Não apenas o humano toca a planta, ele também é tocado por ela.

As personagens do filme permeiam extremos entre a conexão e a desconexão com os elementos que as rodeiam. Ora elas se entregam ao mar, à areia, às rochas ao vento. Ora elas se isolam com equipamentos de proteção individual (EPIs) – constituído por luvas, óculos e macacões – como se evitassem algum tipo de contágio com o ambiente.

“Uma mulher nasce das águas do mar, e diante do mar ouvimos a voz de Davi Kopenawa Yanomami que se pergunta “De onde viemos?” Mar, areia, pedra, mata, folha, cacto. Viemos da relação entre corpos. Viemos da dança das coisas e para continuar dançando estamos aqui. A tal dança cósmica que nos fala Ailton Krenak. O convite da vida é respondido com profunda beleza no filme de Manuela Eichner, e fotografia de Vicente Otávio. Em contraponto a tentativa de saber, vestida e protegida dos nape, a sabedoria dos corpos curiosos e alegres em ser mais uma das coisas do mundo.” Gabriela Carneiro da Cunha, diretora do documentário “A Queda do Céu”.

Do que temos medo de nos contaminar? Do que estamos nos apartando? Por quê?  Estas são algumas das questões que a artista propõe como  provocação, uma tensão surreal sobre as relações de pertencimento do humano como ser vivo, da vida como passagem incontrolável, do fluxo como impermanência. A superioridade humana é posto a jogo em quadros de cenas que evidenciam através de grandes  dimensões e escalas: um pequeno corpo em meio a mata densa ou na imensidão da praia. Gestos de desconforto e tensões oscilando entre comunhão e intimidade, ressaltam a distopia e o “bug” que a humanidade transformou a sua forma de se relacionar com a natureza.

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.
“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

DIÁLOGOS DO TOQUE estreia na televisão no dia 25 de setembro, quinta-feira, às 22h, dentro da faixa +CURTAS, do SescTV, dedicada a obras autorais e de impacto estético que se debruçam sobre temas contemporâneos. E a Revista Philos conversou com a diretora Manuela Eichner que nos cedeu uma entrevista exclusiva sobre o filme:

Manuela, seu filme nasce durante a pandemia, em meio a uma vivência intensa com a natureza de Toque-Toque Grande, litoral de São Paulo. De que forma essa experiência transformou sua percepção sobre o sentir e a relação humano-natureza?

Cada um de nós viveu seu avesso na pandemia. Passei metade do período na minha cidade, São Paulo, e a outra metade, em Toque-Toque. Contraste extremo. Na comunidade litorânea um quê de esquecimento, de vida antiga, um pouco de leveza em meio ao caos. Mergulhei num caminho que já havia iniciado de maior intimidade e estudo das plantas (desde Monstera Deliciosa, 2015) e lá eu observei muito a natureza e seus ciclos. Acredito que foi ali que realmente assumi a nossa não superioridade humano. Estudava muito Krenak, Sidarta, aulas online de tupi-guarani, Metamorfoses, o luto de Chimamanda, entre outras. Vivi a conexão absoluta com o lugar (natureza e pessoas) bem como o mundo digital. Brasil desolação. Queridos muitos que se foram. Tudo corroía por dentro, eu buscava alguma compreensão. E novamente a relação com a natureza me convoca  para uma intimidade e convoca para mais consciência. A meu ver, a natureza é uma das entidades, espécies que mais transformou a minha percepção, consciência e sensibilidade do mundo. E quando falo da natureza estou colocando a gente também. Somos parte integrantes dela.

Em “Diálogos do toque”, vemos as performers ora em comunhão com os elementos, ora isoladas por EPIs. Como você pensa essa metáfora entre aproximação e afastamento em relação ao ambiente natural?

Estava realmente impactada e participando do uso total das redes. Paralelamente, intuindo e percebendo o roubo do presente via tecnologia. E essa “retirada” do toque dos corpos, dos que amamos, do improviso, do acaso, secos  por dentro, enquanto o toque se dava virtualmente. Eu sou uma pessoa nômade e o mundo me fez, e de alguma forma captava a beleza da virtualidade ao mesmo tempo que me buscava espiritualmente junto ao mar. O filme nasce bem nesse lugar, nesse entre espaço e transição tecnológica da virtualidade e da espiritualidade. Dessa forma, o buscar comungar – ritualizar-se e, ao mesmo tempo, o asco-o bug do excesso de proteção e limpeza. Comecei a justamente investigar esse contraste. E do contraste veio as elucidações de gestos/tempos. Busquei ambientes naturais a minha vida toda. Do pampa gaúcho ao deserto do Atacama, de salares Navajos às Cataratas do Iguaçu, O Mundo Alucinante em Reinaldo Arenas.  A natureza sempre me impactou, emocionou e me ensinou sobre o deslocamento. Então o tocar e olhar, o perto e longe, são contrastes na possibilidade de criação de intimidade e conhecimento.

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.
“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

A presença de vozes como a de Davi Kopenawa Yanomami e de artistas como Juçara Marçal amplia as camadas do filme. Como essas colaborações dialogam com sua pesquisa e ajudam a construir o imaginário distópico-poético da obra?

Sempre trabalho com outros artistas. Gosto da multiplicidade. A música já é uma das minhas grandes parcerias e a Juçara Marçal é uma delas. Respeito e tenho um ouvido muito apurado aos sonhos e intuições, por isso sabia que o filme precisava de uma voz de liderança indígena, já que estava adentrando a uma nova consciência e derretendo outras lógicas, nada mais justo que escutar quem nasce e luta por esse saber. O convite à Carla Boregas, tínhamos acabado de trabalhar juntas em Berlin na peça RUN FAST BITE HARD que dirijo com Elisabete Finger. Queria uma conversa com os elementos naturais, cactos, água, areia, por uma via eletrônica, digital, ruidosa, indireta. E ainda faltava um som, uma voz humana, uma proximidade. Era o sussurro da Juçara.

O filme mistura linguagens – dança, performance e artes visuais. Como foi o processo de costurar essas diferentes formas de expressão em uma narrativa coesa? 

Trilhei uma trajetória interdisciplinar, e isso é muito natural pra mim. As dançarinas já fazem parte da performance Monstra, uma coreografia para pessoas e plantas, e todos os outros integrantes já havia trabalhado junto pelo menos uma vez. Gosto de montar equipe, costurar e descobrir o sentido do trabalho somado a outros artistas. E vale lembrar, que sou formanda em video-arte, com um projeto chamado “O Avesso da imagem”. Comecei minha carreira fazendo video-performance com o coletivo Mergulho. 

A ideia de que “não apenas o humano toca a planta, mas também é tocado por ela” aparece como central na sua pesquisa. Como esse entendimento pode influenciar novas formas de pensar a arte e a ecologia hoje? 

Sou uma artista da experiência, eu realmente vivo e/ou investigo o que estou falando. A ecologia tem sido meu tema  de pesquisa há pelo menos quinze anos, e me sinto altamente transformada por ela. Precisamos quebrar concepções estáveis, estagnadas, duras, rígidas, e o se aproximar da natureza é o caminho para compreender movimento, ciclo, vida e morte. Acredito fortemente que esse pensamento é luminoso e a transformação é prática, arte e ecologia é um caminho só pra mim. 

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.
“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

Manuela, o que seu trabalho faz por você e pelo outro? 

Meu trabalho me coloca em lugares inimagináveis e me dá desafios constantes. Aprendi a andar no precipício e ter a calma de observar a situação. Sou uma pessoa curiosa e gosto muito de investigações. Fazer arte me leva para algo mais próximo do que sou, do que serei, do que eu nem sei. É o meu caminho. Preciso. Certeiro. Não tenho dúvida sobre a potência da criatividade e é a partir dessa potência que tento provocar o outro. Para mexer o corpo. Para pensar com o corpo e não fissurar na mente. Trago o público para o estado presente, para a coletividade, por isso construo ambientes, ocupo espaços com participação, entre rua e museu, entre classes, entre territórios, sinto um prazer imenso com o “circo pegando fogo”. Digo, as pessoas se soltando, liberando o acaso, deixar as coisas acontecerem, tem algo de despertar nisso, de gerar conhecimento via coletividade. Manifesto isso!

“Diálogos do toque” aborda a interação de corpos humanos com vários ambientes da natureza experimentando suas texturas, trocas, elementos e composições. Da areia árida à mata úmida, da rocha sólida às águas agitadas do mar. Em meio a paisagens visualmente exuberantes, duas performers da dança (Patrícia Bergantin e Danielli Mendes) exploram limites sensoriais, instintos, movimentos e sentidos provocados pelos elementos que as cercam. O lugar perfeito com relações distópicas. A relação humano-natureza interrompida e descontinuada.

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

SOBRE A EQUIPE

Manuela Eichner é Artista Visual formada em Escultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Natural de Arroio do Tigre/RS, vive e trabalha entre São Paulo e Berlim. Múltipla, a sua produção abarca desde vídeos e performances até oficinas colaborativas, passando pelo desenvolvimento de ilustrações, instalações e murais. Nessas diferentes frentes recorre sistematicamente a princípios de colagem, ruptura e embaralhamento da unidade espacial. Participou de projetos como Rumos Itaú Cultural; Salão Arte Pará; Bienal de Curitiba; ZK/U, em Berlim; AnnexB e Brooklyn Brush, em Nova York; Fikra Graphic Design Biennial, em Sharjah, Emirados Árabes; IASPIS residency em Malmö, Suécia e CND Centre Nacional de la Danse + Cité des Arts em Paris, França.

Vitor Campanario é fotógrafo e realizador audiovisual, atuante desde 2012. Tem formação em Arquitetura pela PUC (MG); pós-graduação em Geografia, Cidade e Arquitetura pela Associação Escola da Cidade (SP); cursou direção de fotografia na Academia Internacional de Cinema (SP) e no Ateliê Bucareste de Cinema. Também estudou cinema digital e arquitetura na Politecnico Di Torino (Itália), aonde assinou a direção de fotografia do curta-metragem Un caffé (2015) dirigido por Jéssica Mateus; e do curta Sotto L´ombra di una Guerra (2014), dirigido por Antônio Augusto Teixeira. No Brasil, dirigiu o documentário Pela Terra (2016); o curta documental Nós, a Terra e Eles (2019); e a direção de fotografia do documentário As Camadas das Águas Invisíveis (2021) do diretor piauiense Antônio Augusto Teixeira. Atuou como assistente de edição nos curtas Ninguém Entra Ninguém Sai (2020) e Ocupagem (2020), ambos dirigidos pelo cineasta Joel Pizzini. Também dirigiu e fotografou o curta Se Piscar Já Era (2020); e o curta Um Pequeno Quarto Estreito, com atuação da artista Síria Yara Ktaish. Como assistente de direção trabalhou no longa-metragem Depois do Trem, de Joel Pizzini e como montador, no filme Abdzé Wede´õ, do cineasta Divino Tserewahú.

Vicente Otávio é fotógrafo e diretor de fotografia de produções audiovisuais.  É formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Tiradentes (Unit) e cursou direção de fotografia no Ateliê Bucareste de Cinema. Em 2016, começa a trabalhar como “videomaker” no mercado audiovisual produzindo filmes documentais, pequenas ficções, peças publicitárias, institucionais, videoclipes e shows. Tendo desempenhado diferentes funções dentro do audiovisual (direção, fotografia, edição e cor), especializou-se no departamento de fotografia e diretor de fotografia.

“Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

Pat Bergantin é artista da dança. Como educadora, desenvolve a prática Corpo Antena. Também faz parte da equipe pedagógica da Escola do Reparar do Modo Operativo AND, criada pela antropóloga e artista Fernanda Eugenio. Formada em Balé Clássico pela Escuela Nacional de Cuba, é graduada no curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP). Atuou em trabalhos como “Mandíbula”, “Égua” e “Contágio”, em colaboração com Josefa Pereira; “Monstra”, de Elisabete Finger e Manuela Eichner; e “Duplos”, de Talita Florêncio e Thiago Salas. Apresentou-se em lugares como no Programa Risquer le Vide pela Universidade Côte D’Azur (FRA-2021), Moderna Museet na Suécia (2020), Bienal de Dança SP (2019), Festival Internacional de Dança do Uruguay (FIDCU-2018) e Museu de Arte Moderna (MAM-SP-2018). Estudou em Veneza (Itália), Bruxelas (Bélgica), Havana (Cuba) e NY (EUA), e trabalhou com Marta Soares, Jorge Garcia, Ricardo Gali, Jerôme Bel, Tino Sehgal, Angie Hiesl & Roland Kaiser e Yvonne Rainer.

Danielli Mendes é artista e professora de Artes Corporais Chinesas. Formada em Dança pela Universidade Estadual de Campinas. Dedica-se ao estudo da Anatomia Chinesa e suas aplicações estéticas e terapêuticas através das técnicas Qi Gong, Lian Gong em 18 Terapias e Kung Fu. Seus principais trabalhos como performer e bailarina são “Antonia” (2016), de Morena Nascimento; “Monstra” (2017/2020), de Elizabete Finger e Manuela Eichner; “Shine” (2017/18) e “Pós-sacre” (2021)), da Cia. Perversos e Polimorfos com direção de Ricardo Gali; “Quiero hacer el amor” (2017-19); “Tremor magnífico” (2020), de Carolina Bianchi; “JAMZZ” (2019); e projeto “Fora” (2021), de Cristian Duarte.  Atuou como assistente de direção (2017) de Marta Soares nas obras “Deslocamentos” e “Bondages”.

Cartaz oficial de “Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.
Cartaz oficial de “Diálogos do toque”, de Manuela Eichner e Vitor Campanario.

SOBRE O SESCTV

O SescTV é um canal de difusão cultural do Sesc em São Paulo, distribuído gratuitamente, que tem como missão ampliar a ação do Sesc para todo o Brasil. Sua programação é constituída por espetáculos, documentários, filmes e entrevistas. As atrações apresentam shows gravados ao vivo com variadas expressões da música e da dança contemporânea. Documentários sobre artes visuais, teatro e sociedade abordam nomes, fatos e ideias da cultura brasileira em conexão com temas universais. Ciclos temáticos de filmes e programas de entrevistas sobre literatura, cinema e outras linguagens artísticas também estão presentes na programação.


SERVIÇO: +CURTAS Diálogos do Toque com direção de Manuela Eichner e Vitor Campanario, Brasil (2024), 24 min | Livre. Estreia 25 de setembro, quinta-feira, às 22h. Assista sob demanda em em www.sesctv.org.br/curtas


[Nota do editor: a palavra nape significa não indígena, branco ou inimigo.]

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